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Um recado para o agora e o tempo à frente

Em um mundo pós-contemporâneo, marcado pela tecnologia acelerada, pela inteligência artificial e pela liquidez das percepções, um elemento essencial da vida humana foi silenciosamente erodido: o senso comum como base da realidade.

Hoje, em meio a modas intelectuais que incentivam a relativização absoluta — inclusive a relativização da própria realidade — torna-se urgente lembrar algo simples e inegociável:
existe uma realidade mínima, objetiva, básica, partilhada, sem a qual nenhuma mente humana pode funcionar de modo equilibrado.

Essa realidade fundamental não é fruto de opinião, ideologia ou preferência.
Ela nasce da experiência comum dos sentidos, da convivência, da linguagem, da sobrevivência e da partilha do mundo.
Antes de qualquer ciência, filosofia, crença ou teoria, existe um terreno partilhado, reconhecido universalmente por qualquer grupo representativo da nossa espécie.
Esse terreno é o senso comum — e é nele que repousa o sustentáculo da vida mental.

Relativizar tudo, inclusive o que é inquestionável para qualquer ser humano saudável, não é sinal de profundidade; é sinal de ruptura.
Quando a mente perde a capacidade de distinguir o que pode ser debatido do que não pode ser dissolvido, o resultado é um colapso de discernimento, proporção e sentido.

O senso comum delimita o que é possível existir, comunicar, perceber, interpretar.
É ele que permite:

  • reconhecer o mundo como mundo,
  • distinguir vigília de delírio,
  • partilhar linguagem,
  • estabelecer relações,
  • construir ética,
  • criar comunidade,
  • sustentar sanidade coletiva.

Sem esse chão, tudo se fragmenta.
E hoje, em 2026, é justamente esse chão que está sendo minado pelos malabarismos da retórica, da hiperinterpretação e da dissolução de limites.

Por isso, se a humanidade deseja operar qualquer mudança realmente importante, lúcida e válida para o tempo presente e para os anos que virão, o primeiro passo é este:

Restaurar o senso comum como fundamento da realidade.

É a partir dele — e somente a partir dele — que recuperamos juízo, proporção, discernimento e sentido.
É nele que reencontramos o ponto inicial para reconstruir a convivência, a verdade compartilhada e a própria possibilidade de humanidade.

Um recado simples, direto e urgente:
não há futuro possível sem a restauração do real comum.


Epílogo

Quando “sofisticamos” nossa percepção sobre o mar e a possibilidade infinita de tesouros incertos ou de elementos ocultos sob a sua superfície, começamos a buscá-lo desesperadamente, cada vez mais distantes da praia, da terra firme, do porto seguro que dava sustentação para nossos pés.

Estamos morrendo afogados —
e não adianta projetarmos instrumentos, ferramentas ou qualquer objeto flutuante que possa nos salvar da nossa própria distração.

Porque, mesmo que tenhamos colocado toda nossa energia nos artifícios da mente para nos afirmar, o que nos salva neste momento não se materializa, ou, no mínimo, não é compatível com a realidade do mar que nossa pretensão sagaz tentou adornar.

O que vemos é fruto do nosso desespero —
desespero para que, no mínimo, possamos poupar a nós mesmos o fracasso de um afogamento inevitável,
ou a agonia por cada segundo de espera por uma ajuda milagrosa vinda de outro lugar,
não de nós.

Mesmo que, para muitos, pareça melhor morrer afogado do que admitir a falha acumulada em milhas náuticas, a boa notícia é que existem boias, madeiras, jangadas e diversas outras estruturas à nossa volta para que nos apoiemos e retornemos juntos à costa segura, real e firme.

Há, portanto, uma decisão mais urgente do que lidar com o extremo de uma realidade projetada e insustentável à beira do fim:

abandonar o projetor que nos domina, atravessa, esgota e sequestra até a própria condição de sobreviver.

Há uma realidade à nossa volta —
real, nossa, pacificadora na base comum —
que nos reconduz ao conforto da satisfação básica,
aos sentimentos mais nutritivos da energia e da disposição,
e aos acordos mais simples, capazes de nos reconectar à estabilidade que partilhamos de nós e expandimos, fortalecidos, ao encontro do outro.

Sem distração.
Sem descontrole.
Sem colapso.

Não precisamos morrer afogados.

Comentário Autoral — Sobre o Epílogo

Este epílogo se apresenta como um gesto poético, mas é, na verdade, uma denúncia suave e um chamado profundo à lucidez. A escolha da metáfora do mar não é apenas estética: ela opera como diagnóstico da era. O mar simboliza a infinitude das interpretações, das promessas de profundidade, das leituras alternativas e das miragens intelectuais que seduzem a mente contemporânea. Ao nos afastarmos da terra firme — a base comum, o chão compartilhado, a realidade mínima e inegociável — passamos a perseguir ilusões cada vez mais distantes de nós mesmos.

A praia, aqui, é o senso comum: o ponto de contato com a verdade simples, concreta e necessária para o equilíbrio mental e coletivo. Quando o texto afirma que “sofisticamos nossa percepção sobre o mar”, denuncia a tendência moderna de adornar o real com projeções, abstrações e fantasmas; tendência essa que se converte facilmente em fuga. E quando declara que “estamos morrendo afogados”, o epílogo não fala de tragédia física, mas de uma exaustão cognitiva crescente — a incapacidade de sustentar a própria navegação depois de ter perdido o porto seguro.

O trecho em que surgem as “ferramentas” e “instrumentos” projetados para nos salvar evidencia a armadilha contemporânea: tentar resolver uma crise criada por excessos mentais usando ainda mais excessos mentais. Os artifícios de interpretação, as teorias salvacionistas e as narrativas autojustificadoras pertencem ao mesmo sistema que causou o afogamento. Por isso, fracassam. O texto escancara essa verdade de maneira sutil, mas objetiva: o que nos destruiu não pode nos salvar.

A aparição das “boias, madeiras, jangadas” devolve o leitor à realidade concreta, simbólica e necessária: a restauração do chão comum passa por estruturas simples, acessíveis, humanas. O epílogo não cede à tentação do milagre intelectual; ele convoca ao reencontro com o fundamental.

A frase central — “abandonar o projetor que nos domina” — é a chave hermenêutica de todo o texto. Esse projetor é a mente exausta de si mesma, o excesso de percepção, de interpretação, de imaginação descontrolada que não reconhece mais o limite saudável entre profundidade e delírio. Ao pedir para abandoná-lo, o epílogo propõe o retorno à sanidade perceptiva, à humildade interpretativa e ao real compartilhado que sustenta a convivência humana.

Por fim, a afirmação “não precisamos morrer afogados” atua como gesto de esperança e maturidade. Não é uma promessa vazia; é a constatação de que há saída. Que há retorno. Que há lucidez possível. Que há vida na terra firme. Que o real ainda nos aguarda — simples, pacificador, comum — para que possamos reconstruir a nós mesmos e uns aos outros.

Este comentário nasce da consciência de que o epílogo não é apenas um fecho literário, mas um ato ético: um convite para que o leitor reencontre o ponto de equilíbrio entre a imaginação e o real. Um lembrete de que a profundidade não está no abismo sem chão, mas na capacidade de voltar para casa.

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